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O futuro da memória escrito por: Richard Bolstad

Nesse artigo, eu quero trazer à memória daqueles que trabalham no campo de que a memória, como nós normalmente pensamos sobre ela, simplesmente não existe.
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Lembre-se de como era a Psicoterapia

Em 1895, Sigmund Freud publicou o “documento básico” da psicoterapia ocidental: “Estudos sobre a Histeria.” Nele, Freud anuncia a sua descoberta de que trauma na infância causa problemas psiquiátricos. Ele diz: “Muito frequentemente é algum evento na infância que estabelece um sintoma mais ou menos grave que persiste durante os anos que se seguem… Até que eles não tenham sido questionados sob  hipnose, essas memórias emergem com a vivacidade não diminuída de um evento recente.” (Freud e Breuer, 1974, p.60).

Esse dramático erro atrapalhou as tentativas de ajudar as pessoas por mais de um século. Nesse artigo, eu quero trazer à memória daqueles que trabalham no campo de que a memória, como nós normalmente pensamos sobre ela, simplesmente não existe. Muitos de vocês podem se lembrar de terem lido isto antes em algum lugar, mas eu também irei apresentar a pesquisa que a apoia.

Inventando o passado

De fato, Hyppolyte Bernheim (1980) demonstrou a falácia da pretensão de Freud quatro anos antes da publicação dos “Estudos sobre a Histeria.” Um hipnotizador e psiquiatra do século vinte, chamado Martin Orne, duplicou as experiências de Bernheim na frente das câmeras da televisão BBC (1980). Ele entrevistou uma mulher, fazendo-lhe algumas perguntas, incluindo como ela havia dormido na noite anterior. Ela disse que tinha, como de praxe, dormido uma excelente noite. Orne então a convidou para relaxar, e “lembrou-lhe” que ela tinha sido acordada durante a noite por algo que soava como tiros. Ele então a acordou completamente e de novo perguntou como ela tinha dormido. Ela descreveu os barulhos que haviam lhe perturbado e que ela agora acreditava que a haviam acordado. Orne então passou a fita da sua declaração pré-hipnose onde ela dizia que tinha dormido muito bem. Longe de perceber de que os tiros eram uma “falsa memória,” a mulher agora estava muito desconcertada de como tinha esquecido aqueles sons perturbantes no começo da entrevista. Ela estava tão convencida da sua memória induzida hipnoticamente que ela estava disposta
a argumentar com a prova do vídeo tape.

Naturalmente, muitas pessoas já tiveram essa experiência de discutir um evento passado com um amigo, e descobrir que o amigo se lembrou incorretamente dos detalhes. Muitos relacionamentos íntimos fracassaram completamente com tais discordâncias. Nós sabemos que o que Orne foi capaz de fazer com uma rápida forma de hipnose também pode ocorrer no nosso dia a dia. Os psicólogos Daniel Simons e Daniel Levin conduziram um extraordinário estudo nos anos 90 para demonstrar como a nossa memória “normal da vida” nos faz de tolos. Imagine que você está caminhando numa rua e um estranho pára para lhe pedir informações. Enquanto você está falando com ele, dois homens passam carregando uma grande porta de madeira. Depois que eles passam, você termina de dar as informações, e o estranho lhe avisa que você acabou de ser o objeto de um experimento psicológico. Ele lhe pergunta se você notou algo estranho depois que os homens com a porta passaram entre vocês. Ele então explica que a pessoa inicial que lhe pediu as informações, na verdade sumiu atrás da porta, e que foi substituída pelo atual entrevistador. O homem inicial reaparece agora – ele tem peso e constituição física diferente, roupas diferentes e voz diferente. Mas, surpreendentemente, 50% das pessoas abordadas dessa maneira não notaram a ocorrência da substituição (Simons e Levin, 1998). O experimento demonstra que muito do que nós “lembramos” é fabricado pela nossa mente a fim de se ajustar com o que nós pensamos que deve ter acontecido.

Mudanças de valores e crenças

Não é só a nossa memória de experiências sensoriais que são frágeis desse jeito. A televisão NBC capturou uma excelente demonstração da hipnose concisa sendo usada para alterar crenças e mesmo valores. Dr. Herbert Spiegel (1980) trabalhou com um bem sucedido homem de negócios com posições políticas de esquerda. Spiegel relaxou o homem, e lhe disse que os comunistas estavam planejando tomar o controle das estações de rádio e televisão nos Estados Unidos. Spiegel sugestionou que o homem devia ser capaz de se lembrar de detalhes dessa conspiração. Depois, quando o homem foi acordado, ele, de fato, tinha uma elaborada história sobre o complô e de como ele tinha ouvido sobre ela. Ele expressou sérias preocupações sobre a esquerda, dizendo que ele havia, recentemente, mudado sua opinião sobre a proposta deles. Spiegel então removeu a sugestão hipnótica e mostrou ao homem o vídeo teipe de toda a sequência. O homem de negócios ficou extremamente perturbado ao presenciar ele mesmo falando “como um ultraconservador.”

No dia a dia da vida, tais mudanças em valores e crenças são mais comuns do que nós gostaríamos de pensar. O modo mais fácil para notá-las é perceber como os  valores das outras pessoas podem ser inconsistentes; por exemplo, uma pessoa que “fica caída de amor” pode, de repente, descobrir que ela compartilha os valores do seu amado, mesmo que esses valores discordem intensamente das suas “próprias” opiniões anteriores. Dra. Elisabeth Loftus conduziu mais de 200 experimentos de pesquisa demonstrando que as memórias podem ser implantadas, sem hipnose, por simples sugestão. Isso acontece no contexto terapêutico, onde as memórias reais estão sendo exploradas? Certamente. Aqui está um pequeno exemplo dado por Loftus:

Em Missouri, no ano de 1992, um conselheiro da igreja ajudou Beth Rutheford a recordar, durante a terapia, que seu pai, um clérigo, a tinha violentado regularmente entre os seus 7 e 14 anos e que sua mãe, as vezes, o ajudava mantendo-a sob sujeição. Sob a orientação do seu terapeuta, Rutheford desenvolveu memórias de que o seu pai a havia engravidado duas vezes, forçando-a a praticar o aborto do feto com um cabide. O pai teve de renunciar de seu posto como clérigo quando as alegações se tornaram públicas. Entretanto, mais tarde, exames médicos da filha revelaram que ela ainda era virgem com a idade de 22 anos e que nunca tinha estado grávida. A filha processou o terapeuta e recebeu uma indenização de um milhão de dólares em 1996 (Loftus, 1997)

Essa história mostra o exemplo de uma pessoa alterando radicalmente as suas crenças e valores como resultado de uma conversa “terapêutica.” É claro que as pessoas recordam a informação verdadeira durante a terapia e a hipnose. A pesquisa de Loftus demonstra que, infelizmente, nós simplesmente não podemos dizer se uma memória nova é real ou não. Num dos seus estudos, ela selecionou sujeitos que quando crianças, de acordo com as suas próprias informações e das suas famílias, nunca tinham sido hospitalizados com infecção no ouvido. Ela então fez com que um parente dissesse a cada sujeito que quando eles eram crianças, eles foram hospitalizados por uma noite com infecção no ouvido. Depois disso, 20% dos sujeitos afirmaram se lembrar da hospitalização, mesmo tendo sidos informados da ocorrência da pesquisa. Os sujeitos se lembravam de detalhes como quem os tinha visitado no hospital. Quando as pessoas estão propensas a mudar toda a sua resposta para a sua família e comunidade como resultado de tal memória, isso é um assunto sério. Para crédito deles, diversas pessoas dentro da comunidade da PNL/Ericksoniana já expressaram preocupação sobre isso (e.g. Associação da Terapia da Linha do Tempo, 1994; Yapko, 1994). Eles chamaram a atenção que nós, como terapeutas, precisamos advertir muito explicitamente os clientes de que qualquer memória que eles recuperem durante o trabalho com a PNL provavelmente não serão aceitas como evidência num tribunal, e que existe uma considerável chance de que tais memórias possam ser contestadas por outras evidências (i.e., que os fatos irão demonstrar que elas são falsas).

A mutável região arenosa da memória

De fato, não existem memórias que permaneçam “intactas” como se elas tivessem sido gravadas em vídeo. Isso foi entendido pelos pesquisadores já no ano de 1932, quando F. C. Bartlett escreveu:

Lembrar não é a reexcitação de inumeráveis traços estáveis, traços sem vida e fragmentados. É uma reconstrução imaginária, ou construção, construída sem a relação da nossa atitude sobre toda uma massa ativa de organizadas reações passadas ou de uma experiência, e para um pequeno detalhe excepcional o qual comumente aparece em imagem ou na forma de linguagem. Assim, quase nunca, é muito exata, mesmo nos casos mais rudimentares de
recapitulação, e não é tão importante como deveria ser…(Bartlett, 1932) “Memórias” são construídas no presente, retiradas da mixórdia de dados armazenados em outros tempos. Elas são modeladas pelo nosso cérebro atual; pelo nosso ânimo, pelo nosso atual sistema de crenças e assim por diante. Como exemplo do modo como o nosso cérebro atua hoje modelando as nossas memórias, considere os estudos do que é chamado de “cegueira
desatenda”. Quando o córtex parietal posterior é danificado de um lado, ocorre um resultado muito interessante. A pessoa irá falhar em prestar atenção a objetos vistos no lado afetado do seu campo visual. Isso se torna evidente se você lhe pedir para descrever todos os objetos na sala em que ela está sentada. Se o lado afetado é o esquerdo, por exemplo, ela irá descrever todos os objetos do lado direito da sala, mas vai ignorar tudo que está na esquerda. Ela será capaz de confirmar que estes objetos estão lá na esquerda, se você perguntar por eles, mas, por outro lado, ela não irá relatá-los (Kalat, 1988, p.197; Miller, 1995, pp.33-34).

Edoardo Bisiach (1978) é um pesquisador italiano que estudou pessoas com esse tipo de lesão. Rapidamente ele descobriu que essa lesão afetava mais do que a percepção atual deles. Por exemplo, ele pediu à um paciente que imaginasse o panorama da Piazza del Duomo, em Milão, uma visão que esse homem teve todos os dias, por alguns anos, antes da sua doença. Bisiach o fez se imaginar de pé nos degraus da Catedral e mandou ele descrever tudo o que podia ser visto de lá. O homem descreveu apenas metade do que podia ser visto, embora insistisse que a sua recordação estava completa. Bisiach o fez então imaginar a vista
do outro lado da praça. Ele então, fluentemente, reportou a outra metade dos detalhes. As memórias do homem estavam sendo montadas pelo seu sistema cerebral atual, e como o seu sistema cerebral atual estava “imperfeito”, também todas as suas memórias estavam alteradas de acordo.

Este é precisamente o problema que nós enfrentamos ao trabalhar com uma pessoa que está deprimida. Ela pode nos contar que nunca foi feliz, porque cada memória em que ela pensa é processada pelo mesmo cérebro que está gerando a depressão. Ela não pode mais prestar atenção facilmente nas experiências felizes que uma vez ela já teve. Do mesmo modo, uma pessoa que está irritada pode relatar que nunca alguém foi gentil com ela, e uma pessoa que está triste pode se lembrar de que nunca foi amada. Virginia Satir reconheceu isso, e considerava que uma das suas principais funções como terapeuta, era ajudar as pessoas a reconstruir memórias mais úteis. Na transcrição do seu trabalho chamado de “Forgiving Parents” (Andreas, 1991, pp.104-107), Satir se ocupa de uma cliente, Linda, que alega que sua mãe nunca a alimentou, nunca lhe colocou cobertas na cama de noite e que nunca lhe deu um banho. Virginia simplesmente diz “Eu não acredito nisso” e, Linda, finalmente, admite que talvez, algumas vezes, a sua mãe tenha lhe dado banho.

No trabalho de Milton Erickson, nós podemos ver a noção de memórias reconstruídas serem levadas até as últimas consequências, com a história do Homem de Fevereiro (Erickson e Rossi, 1989). Numa série de sessões, Erickson trabalha com Jane, que diz que teve uma infância sem o amor dos pais, e que está com medo de que agora ela mesma será incapaz de ser uma boa mãe. Em transe, Erickson faz o “percurso de volta” à sua infância, visitando-a cada mês de fevereiro para lhe fornecer suporte amoroso e ressignifica as experiências da infância dela. Por exemplo, ele chama a atenção dela que é uma experiência dolorosa bater o dedo do pé contra algo, mas “Talvez algum dia você irá falar para um menininha sobre ela bater o dedo do pé. Você realmente quer saber como é bater o dedo do pé. Isto não está certo?” (p.47). Ele explica para Ernest Rossi sobre esse processo, “Você não altera realmente a experiência original, você altera a percepção dela, e isto se torna a memória da percepção.” (p.77). Jane agora irá se lembrar desse momento de “dor” na infância como um momento de aprendizagem sobre como ser uma boa mãe.

O que lembrar desse artigo

Esses conhecimentos sobre a natureza ilusória e sintética da “memória” são pressupostos no desenvolvimento original da PNL. Por exemplo, em Sapos em Príncipes, Bandler e Grinder discutem o seu uso no processo de Mudança da História Pessoal com uma cliente chamada Linda, enfatizando “A história pessoal e original que Linda reviveu, reexperimentou hoje quando passou pela experiência, é outra ilusão como a nova experiência que ela passou durante o processo. Este que foi inventado é tão real como aquele que ela ‘teve na verdade’… Memórias inventadas podem lhe mudar tanto como as percepções arbitrárias que você inventou na época dos ‘eventos do mundo real.’” (1979, p.96-97).

No meu trabalho como Trainer de PNL, muitas vezes me deparei com estudantes que não compartilham esse conhecimento consciente da espécie das suas próprias recordações e de seus clientes. Eles assumem que se um cliente “lembra” de uma experiência da vida passada quando está fazendo o processo da Terapia da Linha da Tempo, então, esta memória deve ser “real.” E de fato, ela é real… tão reais como as memórias da hospitalização que Elisabeth Loftus despertou nos seus sujeitos experimentais, ou tão reais como as memórias da Piazza del Duomo as quais Edoardo Bisiach eliciou do seu paciente.

Quer testar a teoria? Na próxima semana fale sobre esse artigo para uns amigos. E, uma semana depois, releia o artigo e descubra como você alterou as histórias. É uma experiência sensata. Eu me lembro de tê-la feito muitas vezes.

Artigo publicado na Revista Anchor Point de outubro de 2001

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